December 2008
18 posts
Dec 21st
Aviso da Lua que Menstrua
[Elisa Lucinda] Moço, cuidado com ela! Há que se ter cautela com esta gente que menstrua… Imagine uma cachoeira às avessas: cada ato que faz, o corpo confessa. Cuidado, moço às vezes parece erva, parece hera cuidado com essa gente que gera essa gente que se metamorfoseia metade legível, metade sereia Barriga cresce, explode humanidades e ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar ...
Dec 21st
Todas as Vidas
[Cora Coralina] Vive dentro de mim uma cabocla velha de mau-olhado, acocorada ao pé do borralho, olhando pra o fogo. Benze quebranto. Bota feitiço… Ogum. Orixá. Macumba, terreiro. Ogã, pai-de-santo… Vive dentro de mim a lavadeira do Rio Vermelho, Seu cheiro gostoso d’água e sabão. Rodilha de pano. Trouxa de roupa, pedra de anil. Sua coroa verde de são-caetano. Vive dentro de mim a...
Dec 21st
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Venturosa de Sonhar-te
[Cecília Meireles] Venturosa de sonhar-te, à minha sombra me deito. (Teu rosto, por toda parte, mas, amor, só no meu peito!) -Barqueiro, que céu tão leve! Barqueiro, que mar parado! Barqueiro, que enigma breve, o sonho de ter amado! Em barca de nuvem sigo: e o que vou pagando ao vento para lever-te comigo é suspiro e pensamento. -Barqueiro, que doce instante! Barqueiro, que instante imenso,...
Dec 21st
Tenho um Plano
[Paula Taitelbaum] Tenho um plano Para cada dia da semana Para disfarçar cada engano Cada enguiço Preguiça Premissa Percalço Que por acaso Me assalte Te asfalte Feito esmalte Que fixa Asfixia Durante estes sete dias Que se repetem por covardia. .
Dec 21st
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De Canto...
[Salette Tavares] De canto e hora meu nada se enlouquece neste espanto de ver e de não ser e na pergunta a resposta se empobrece sem luz de outra manhã, o acontecer. No turbilhão do pequeno o breve esquece Cantata de paz Sophia de Mello Breyner Andresen Vemos, ouvimos e lemos Não podemos ignorar Vemos, ouvimos e lemos Não podemos ignorar Vemos, ouvimos e lemos Relatórios da fome O caminho da...
Dec 21st
Femininas
[Antoniella Devanier] Sombras doces, que escondem vidas Doces onças, que ferem as grades Pacatas visões, que encontram ninas Minhas onças femininas, num harém. Desferem garras e golpeiam memórias. Ana Cristina Cesar que revive estórias, Marias que alimentam filhos livres, Adélia Prado e suas novas glórias. Aleluias, minhas meninas-tigres Meio-onças que revivem lidas ao lado de seus...
Dec 21st
Que Me Venha Esse Homem
[Bruna Lombardi] Que me venha esse homem depois de alguma chuva que me prenda de tarde em sua teia de veludo que me fira com os olhos e me penetre em tudo. Que me venha esse homem de músculos exatos com um desejo agreste com um cheiro de mato que me prenda de noite em sua rede de braços que me perca em seus fios de algas e sargaços. Que me venha com força com gosto de desbravar que me faça de mata...
Dec 21st
Um Beijo
[Ana Cristina Cesar] Que tivesse um blue. Isto é imitasse feliz a delicadeza, a sua, assim como um tropeço que mergulha surdamente no reino expresso do prazer. Espio sem um ai as evoluções do teu confronto à minha sombra desde a escolha debruçada no menu; um peixe grelhado um namorado uma água sem gás de decolagem: leitor embevecido talvez ensurdecido “ao sucesso” diria meu censor...
Dec 21st
Ser Mulher
[Dorothy Parker] Tradução: Angela Carneiro Por que será que quando estou em Roma daria tudo para estar em casa na redoma mas se estou na minha terra americana minha alma deseja a cidade italiana? E quando com você, meu amor, meu remédio, fico espetacularmente cheia de tédio Mas se você se levantar e me deixar Grito para você voltar? .
Dec 21st
Poema da Amante
[Adalgisa Néri] Eu te amo Antes e depois de todos os acontecimentos Na profunda imensidade do vazio E a cada lágrima dos meus pensamentos. Eu te amo Em todos os ventos que cantam, Em todas as sombras que choram, Na extensão infinita do tempo Até a região onde os silêncios moram. Eu te amo Em todas as transformações da vida, Em todos os caminhos do medo, Na angústia da vontade perdida E na dor que...
Dec 21st
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Sexta-Feira à Noite
[Marina Colasanti] Sexta-feira à noite os homens acariciam o clitóris das esposas com dedos molhados de saliva. O mesmo gesto com que todos os dias contam dinheiro papéis documentos e folheiam nas revistas a vida dos seus ídolos. Sexta-feira à noite os homens penetram suas esposas com tédio e pênis. O mesmo tédio com que todos os dias enfiam o carro na garagem o dedo no nariz e metem a mão no...
Dec 21st
Uma Arte
[Elizabeth Bishop] Tradução: Horácio Costa A arte de perder não tarda aprender; tantas coisas parecem feitas com o molde da perda que o perdê-las não traz desastre. Perca algo a cada dia. Aceita o susto de perder chaves, e a hora passada embalde. A arte de perder não tarda aprender. Pratica perder mais rápido mil coisas mais: lugares, nomes, onde pensaste de férias ir. Nenhuma perda trará...
Dec 21st
Teu corpo, Meu Espaço
[Manuela Amaral] Teu corpo é raiz rasgando a terra nua do meu sexo Teu corpo é vertical onde os meus dedos tocam as distâncias Teu corpo é diálogo sem palavras O grito em ressonância no meu espaço .
Dec 21st
Tem Uma Outra Cabeça
[Cristina Lacerda] Tem uma outra cabeça na minha cama faz barulho de motor às vezes ronrona às vezes tem pesadelos às vezes me estende a mão tem uma outra cabeça na minha cama e me é às vezes desconhecida tem barulho de gente na minha cama não é metade de mim mas me acompanha - e eu estou aqui tem corpo conhecido na minha cama há séculos eu o escuto dormir e isso me emociona .
Dec 21st
Os Cogumelos do Paraíso
[Cristiane Neder] Minha loucura não tem complexo nem de Édipo, nem de Electra, nem de qualquer puro amor que saia das artérias. Vivo no paraíso dos cogumelos dias tristes, dias alegres, mas tudo é ilusão passageira, só não passa nesta vida a casca estrangeira. O doce e o amargo do sabor da tua língua ficou no Caribe lá nos Portos cheios de gozo e de prostituição. Os cogumelos do paraíso são...
Dec 21st
Lágrimas Ocultas
[Florbela Espanca] Se me ponho a cismar em outras eras Em que ri e cantei, em que era q’rida, Parece-me que foi noutras esferas, Parece-me que foi numa outra vida… E a minha triste boca dolorida Que dantes tinha o rir das Primaveras, Esbate as linhas graves e severas E cai num abandono de esquecida! E fico, pensativa, olhando o vago… Toma a brandura plácida dum lago O meu rosto...
Dec 21st
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Dec 21st